Perfil de linguagem da criança com Autismo

A linguagem é a componente fundamental em todas as sociedades humanas. É a ferramenta pela qual se organiza o conhecimento intelectual, social e cultural e se passa às gerações futuras. A linguagem resulta de uma atividade nervosa complexa e constitui-se como um código simbólico representativo de ideias ou conceitos sobre o mundo.

Desenvolve-se em contacto com os membros de comunidade e é considerada o meio, o mediador e a ferramenta do pensamento, permitindo o acesso ao pensamento abstrato. Juntamente com as competências de memória e de atenção, é o catalisador da mudança cognitiva na infância e apresenta um papel central no desenvolvimento, interferindo diretamente com o desempenho social e evolução cognitiva.

A linguagem compreende a receção e a expressão de ideias, pensamentos e mensagens, subdividindo-se nas componentes forma, uso e conteúdo. Dentro da forma, podemos incluir os subsistemas sintaxe, morfologia e fonologia; no conteúdo a semântica; e no uso a pragmática.

O funcionamento da linguagem requer a codificação das ideias (semântica), a escolha da unidade sonora (fonologia), a escolha da ordem das palavras (sintaxe), a escolha das partículas de ligação e da estrutura compatível entre as palavras (morfologia), para obtenção da finalidade comunicativa (pragmática).

Nas crianças com Perturbações do Espectro do Autismo, o funcionamento da linguagem pode ser muito díspar, desde crianças cujo acesso à linguagem é remoto, até às crianças que apresentam limitações na utilização da linguagem enquanto ferramenta social. Atualmente, e à luz do da classificação DSM V, o atraso de desenvolvimento de linguagem foi excluído como critério de diagnóstico da PEA, devendo o avaliador especificar “com ou sem défice da linguagem acompanhante”.

No entanto, existem algumas características no desenvolvimento da linguagem de crianças com PEA que podem ser destacas, como:

  • o atraso no desenvolvimento da fala;
  • a presença de diferentes défices na compreensão e/ ou expressão, com implicação em um ou mais dos subsistemas de linguagem;
  • a presença de um discurso estereotipado;
  • a presença de ecolália (repetição de discurso) imediata e/ou diferida;
  • dificuldade na utilização da linguagem como meio de comunicação;
  • inversão dos pronomes pessoais (referência a si próprio usando o “tu”);
  • estrutura gramatical imatura, quer do ponto de vista recetivo quer expressivo;
  • dificuldade na compreensão de uma conversação;
  • dificuldade na formulação de perguntas, caracterizando-se o discurso da criança apenas por pedidos e protestos;
  • dificuldade na adaptação da linguagem às diferentes situações e interlocutores (adequação do discurso ao falar com o professor vs falar com a mãe).

Podemos ainda encontrar crianças com um vocabulário globalmente pobre, mas rico nos seus interesses, conhecendo, por exemplo, todos os países do mundo e respetivas capitais e bandeiras. No entanto, poderão surgir dificuldades na compreensão de enunciados abstratos, das noções espaciais e temporais, assim como no estabelecimento de relações conceptuais complexas. O perfil de linguagem de uma criança com Perturbação do Espectro do Autismo deve ser aferido conjuntamente pela família e pelo terapeuta da fala.

 

Vanessa Leitão Silva

Terapeuta da Fala

Coordenadora do Departamento de Terapia da Fala