A Depressão nas Perturbações do Espectro do Autismo

A depressão é uma condição psiquiátrica comum, que afeta de forma muito negativa a maneira como as pessoas sentem, pensam e se comportam e que pode surgir em qualquer fase da vida. Caracteriza-se normalmente por sentimentos de tristeza profundos ou humor deprimido, perda de interesse e prazer, baixa auto-estima, desesperança, falta de energia e cansaço, dificuldades de concentração, pensamentos sobre morte ou suicídio. Frequentemente, é acompanhada de elevados níveis de ansiedade. Os sintomas de depressão variam quanto à gravidade e duração, sendo considerada pela Organização Mundial de Saúde uma das doenças mais graves e que mais pessoas incapacita no mundo. 

A depressão aparece frequentemente associada às Perturbações do Espectro do Autismo (PEA) sobretudo em jovens e adultos, mas ainda pouco se conhece acerca da sua verdadeira expressão e prevalência.

A identificação de qualquer comorbilidade psiquiátrica na prática clínica com PEA, nomeadamente depressão, é condicionada pelas próprias características do autismo observadas na pessoa. A PEA é uma perturbação do neurodesenvolvimento , que cria um padrão de alterações comportamentais/sociais, cognitivas, emocionais e sensoriais que afetam a forma como a pessoa se desenvolve, interferindo com as competências de adaptação e afetando de forma transversal todos os domínios da sua vida.

Assim, frequentemente o diagnóstico de depressão é dificultado, por exemplo, pelas dificuldades ao nível da expressão verbal ou não-verbal (dificuldade no uso da linguagem para expressar dimensões emocionais subjetivas ou as dificuldades na modelação da expressão facial) ou pela sobreposição de sintomas e a sua manifestação muitas vezes atípica, o que condiciona posteriormente o tratamento.

Por isso, é importante considerar no acompanhamento da pessoa com autismo que, determinados comportamentos frequentes no quadro clínico das PEA (e.g. afastamento/isolamento social, comportamento obsessivo-compulsivo, sensibilidade ou alterações sensoriais e psicomotoras, comportamento ritualizado, procura intensa dos interesses restritos/repetitivos, perturbações do sono, flutuações no apetite) podem ser indicadores de depressão e merecem por isso uma atenção diferente, sobretudo quando observados com intensidade atípica para o perfil da pessoa ou quando observada alteração na sua frequência.

Atualmente, existe ainda pouca investigação sobre a expressão e a prevalência da depressão nas PEA, sendo ainda menos o numero de estudos que abordam o seu tratamento ou que identificam fatores de risco e proteção, mas é clara na prática a necessidade de estabelecer procedimentos de rastreio e diagnóstico para a comorbilidade psiquiátrica nas PEA, incluindo depressão, que considerem a sobreposição de sintomas das condições e as implicações ao nível do funcionamento adaptativo.

Por Regina Pires

Psicóloga Clínica